A Índia e o hinduísmo

O ser humano é complicado. E acho que faz parte da maravilha que é ser humano essa complicação toda. Falando no post anterior sobre a Índia e o hinduísmo, vi surgir exatamente uma ameaça daquilo que eu mais queria combater: a intolerância religiosa. Por incrível que pareça, acho que não deu para perceber que a minha ideia com as postagens sobre os comentários do Dhammapada era (e é) exatamente o oposto disso. Eu buscava a harmonia e a plena integração entre as diferenças.

E mais uma vez, escrevo para esclarecer alguns pontos importantes que vão sendo levantados com o aprofundamento da discussão, porque vejo ótimas oportunidades de esclarecer dúvidas que são as mesmas de muita gente: são questões recorrentes que eu já respondi muitas e muitas vezes: por email, pessoalmente... E já vi também essas mesmas questões serem colocadas em aula, em sites, em publicações, etc... Por isso é que eu insisto tanto nesse conceito de 'Busca', que a gente precisa BUSCAR conhecer as coisas, para não cair na cilada de aceitar certos (pré)conceitos estabelecidos que andam por aí, e que, de tanto serem repetidos, acabam se parecendo com verdades. Mas não são. Então vamos lá:


Paganismo

Foi colocada uma questão bem interessante e pertinente nos comentários: “Os cristãos chamam os hindus de pagãos”. Para esclarecer esse ponto, é importante a gente entender que o termo "pagão" não tem nada de pejorativo. Uma civilização que crê em muitos deuses é corretamente classificada como “pagã”, e isso não é nenhum xingamento. ‘Paganismo’ é o termo culto para designar as religiões pré-cristãs e politeístas. - Está nos livros. - O paganismo é a religião mais antiga conhecida pela humanidade, e segundo muitos autores é a raiz da qual se ramificaram as diversas religiões da Antiguidade, que por sua vez deram origem as religiões que conhecemos hoje.




Já os pagãos modernos geralmente são chamados de ‘neopagãos’, porque as religiões originais das civilizações antigas não são mais praticadas. Além disso, algumas novas religiões vêm sendo fundadas, nos tempos modernos, como uma tentativa de recriar as primitivas religiões pagãs, revivê-las ou continuar a sua tradição. Estas adotam o nome de 'mesopagãs', e repito, não há nada de ofensivo nesses termos todos.

Quanto ao hinduísmo, trata-se de uma tradição religiosa muito complexa, mas que é oficialmente classificado como religião pagã, tanto pela sua antiguidade quanto pela adoção de um imenso panteão de deuses - O que é uma questão delicada e bem complexa, porque muitos dos próprios mestres hindus negam adorar muitos deuses. - Seja como for, ainda neste post vou falar sobre isso e tentar esclarecer essa complicada situação de uma vez por todas.

É também muito importante entendermos que os termos 'pagão' e 'paganismo' não são usados exclusivamente pelos cristãos: não são somente os cristãos que fazem uso dessas expressões, mas também o próprio estudo científico da religião. Em qualquer curso universitário de Ciência da Religião, por exemplo, vamos aprender que o hinduísmo é considerado 'uma das últimas tradições do paganismo que permanece viva até os nossos dias'. Esse não é um conceito exclusivamente cristão.

Acreditando ter esclarecido o ponto em questão, deixo este link para maiores informações sobre o paganismo. Continuemos o raciocínio...


A Índia real

Eu fiz questão de falar sobre a Índia no post, justamente para tentar desmistificar essa aura mítica (ou seja, isso é mito) de que a Índia é um país espiritualizado, de homens santos e sábios que passam os dias meditando à sombra das árvores. A realidade NÃO é essa. Eu fui membro de um templo hindu, me considerei ‘hindu’ por um bom tempo e convivi com hindus indianos. Além disso, tenho amigos que viveram na Índia. Posso garantir que a Índia não tem nada a ver com essa ilusão persistente, - que por incrível que pareça está sendo ‘desconstruída’ no inconsciente do brasileiro por uma novela de TV.

Para que se tenha uma ideia, cristãos estão sendo perseguidos e mortos por hindus na Índia, agora mesmo (como se pode ver aqui, aqui e aqui, por exemplo) . A maioria dos hindus não quer saber de influências religiosas estrangeiras no seu país. Repito: para quem pretende mesmo entender a Índia, é preciso se livrar de uma vez por todas dessa falsa imagem de uma nação de homens pacíficos, sábios e tolerantes para com todas as religiões.

A guerra entre os hindus e os muçulmanos, por exemplo, persiste na Índia desde a época da independência da Inglaterra, com atentados, mortes, estupros de mulheres alheias (o estupro na Índia é facilmente justificado), assassinatos de crianças, tortura e tudo de mais feio que possa existir em qualquer outro lugar. Tudo isso sem contar o horrendo sistema de castas que subsiste desde a antiguidade e é muito, mas muito mais feio do que mostra a novela da TV, assunto sobre o qual eu já falei com detalhes por aqui, citando dados oficiais. - Será que um povo verdadeiramente espiritualizado apoiaria um sistema social assim? E por tanto tempo? Sem nenhum tipo de provocação, dou graças a Deus por ter nascido num país cristão e laico, que pode ter muitos problemas e injustiças, mas onde todos têm direitos iguais, garantidos pela constituição, e onde a discriminação é crime.


Uma trabalhadora dalit limpa fezes humanas para sobreviver:
Mesmo nas maiores cidades da Índia ainda não existe serviço de
esgoto disponível para todos, e os dejetos são lançados em fossas
a céu aberto. Imagine o cheiro sob o calor de 46° do verão indiano!


Índia: monoteísta ou politeísta?

Mas a principal questão levantada nos comentários que eu gostaria de (ao menos tentar) esclarecer é esta: afinal, os hindus adoram ou não a muitos deuses?

Oficialmente os hindus são considerados politeístas, isto é, se você consultar os tomos, vai encontrar a afirmativa unânime de que se trata de uma nação teocrática e politeísta. Mas existem controvérsias nesse sentido, já que muitos dos próprios hindus contestam essa informação. Qual a solução para esse antigo dilema? A verdade a esse respeito é complexa, tem muitos lados, por isso devemos analisar os muitas faces da questão separadamente:

É um fato inegável, público e notório, que a grande maioria da população da Índia realmente acredita em milhares de deuses, adora a milhares de deuses e pede graças a milhares de deuses. E adianto que isso não é feito simbolicamente e nem metaforicamente, mas literalmente. - Segundo estimativas do próprio governo da Índia, são adorados mais de 330 milhões[1] de deuses naquele país. - Eu não falei 330 e nem 330 mil, mas 330 milhões!


Criança bebe leite junto com ratos no Karni Mata


Existem na Índia, por exemplo, os templos em honra aos ratos, como o Karni Mata, onde eles são adorados, literalmente como deuses, e isso não é simbolismo. A maioria dos hindus realmente acredita que os ratos são deuses, e a prova disso é que, além de servi-los com leite, mel e cereais nobres, bebem do leite e comem da ração que lhes é servida nos mesmos pratos, juntamente com os roedores, pois acreditam que assim receberão graças especiais.

Observação: enquanto os ratos se deleitam, a maior parte da população não tem o que comer. A Índia é um dos países que tem a maior taxa de mortalidade infantil por desnutrição do mundo (Fontes: Ansa / WHO - Organização Mundial de Saúde).

Observação 2: os ratos do templo não são ratinhos limpinhos, criados em laboratório ou num lugar específico para o culto. O Templo é aberto e os ratos e ratazanas da rua entram e saem à vontade. Mesmo assim é comum ver mães levando suas criancinhas para beber o leite junto com os ratos (e ratazanas). Acreditam que assim serão abençoadas.

Mas os ratos não são os únicos animais adorados como divindades, literalmente, na Índia. Também as vacas, os elefantes, as serpentes, os perus e os macacos, e isso sem falar de uma infinidade de outras formas que são vistas como deuses vivos: árvores, pedras, montanhas, cristais, rios e etc, etc...

Na comunidade hindu em que eu tive a oportunidade de conviver com hindus indianos, aprendi que muitos deles acreditam realmente que Ganesha, por exemplo, é um menino com cabeça de elefante que vive mesmo, naquela forma exata, em algum plano espiritual superior, e que Krishna foi mesmo um jovem de pele azul que corria pelos campos tocando sua flauta e aprontando traquinagens acompanhado de suas gopis.

Recentemente houve uma comoção nacional na Índia, quando uma estátua de Ganesha aparentemente começou a beber o leite que lhe era oferecido a colheradas[2]. Um filme-documentário do Discovery Channel demonstrou que o leite estava era escorrendo pela boca da estátua e vazando até a sua parte traseira, por trás das vestes e ornamentos que a envolviam, formando uma grande poça branca atrás dela, - que era claramente visível no filme, - mas os devotos rejeitaram a explicação e mais que depressa trataram de esconder a estátua. Para eles, era de fato Ganesha aceitando a oferta dos fiéis e bebendo o leite.

Essas são algumas das razões porque os hindus têm muita dificuldade em entender a concepção de um Deus único e UNO, um só Criador e Fonte da Vida, concebido e entendido exclusivamente na Pessoa do Pai (Criador), Filho (Canal com a humanidade) e Espírito Santo (Sopro da Vida e Inspiração Divina). É difícil conceber a fé cristã num único Deus, pois para eles 'tudo é Deus e Deus é tudo', seja de que forma for, mesmo acreditando que a divindade está presente de modo especial em estátuas e em certos animais.





O outro lado

Nesse ponto faço questão de deixar bem claro que todas as informações passadas até aqui não representam opiniões pessoais, mas fatos que podem ser facilmente comprovados, e é preciso que sejam de uma vez por todas entendidos, se pretendemos nos considerar buscadores da Verdade. Este não é um post crítico ou opinativo, mas puramente informativo. Estando bem esclarecidos estes pontos, vamos agora apreciar o outro lado dessa grande questão.

Como buscador da verdade eu não poderia fechar os olhos para as realidades que demonstrei até aqui, mas igualmente não poderia classificar os hindus em uma categoria qualquer, nem chegar a quaisquer conclusões ao seu respeito, sem expor o que eles mesmos têm a dizer sobre a sua própria religião. Dentro de todo esse cenário tão complexo, há uma outra realidade que vale a pena ser examinada, como sempre, sob o crivo de nossas consciências e do nosso discernimento.

São quatro os principais ramos dentro do hinduísmo, classificados pelos próprios hindus como seitas derivadas do conhecimento original: o Sivaísmo (ou Shivaísmo), o Shaktismo, o Vaishnavismo, e o Smartismo. E existem, dentro desses ramos, fortes correntes de pensamento (muito bem representadas) que buscam preservar o ensinamento de que todas as formas, imagens, estátuas e cerimônias cultuais, em última análise, reverenciam ao único Deus, o Eterno e Indizível, que permite essas várias formas de culto por ser dotado de diversos Olhares, Competências e Atributos.

Segundo a linha mais pura ou mais avançada do hinduísmo, - o conjunto dos conhecimentos cultivado e estudado pelos brâmanes, - todas as muitíssimas formas de adoração dos hindus representariam, na realidade, um só Deus, que chamam Brahman, Parabrahman, Paramatma ou Satchidananda.




Os verdadeiros princípios da fé hindu explicados e comentados

A partir deste ponto trago algumas explicações clássicas e bem didáticas de autênticos mestres hindus, começando por uma declaração do Prof° C.V. Rajan[3]:

"Assim como uma mulher casta e pura que, como convém, se casou virgem, considera o seu marido como o único belo e maravilhoso homem do mundo, de igual modo, nas camadas ou castas mais baixas da nossa religião, cada crente tem a sua convicção pessoal de que só o seu deus é o mais poderoso e verdadeiro. Mas esse comportamento é igualmente incentivado por nós, porque entendemos que ele adora ao mesmo único Deus que existe, à sua maneira.

Como uma pessoa que amadurece em seu progresso religioso, ele aos poucos pode ultrapassar o seu estreito modo de pensar e deixar de fazer condenações. Ele aos poucos passa a conhecer, através da experiência, que existe um Senhor Supremo, que por Sua Graça se adapta e se manifesta sob a forma do deus pessoal deste ignorante, assim como se apresenta em outras formas para satisfazer outras seitas de crentes. No último nível da experiência religiosa, o solicitador percebe que todo o Universo é simplesmente nada além de Deus e isso inclui a sua própria alma, também."


Ainda na tentativa de esclarecer melhor a concepção hindu acerca desses pontos tão complicados, segue a explanação mais completa de um outro mestre hindu contemporâneo, o conceituado Prof° Naren Nagin[3]:

"Nas Escrituras cristãs, com relação à Criação, se diz que 'primeiro era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus'. O conceito hinduísta é semelhante, embora não reconheça um começo para a Criação e nem um ponto final. O hinduísmo acha a palavra 'emanação' mais apropriada do que 'criação'. Chame-se a isso natureza ou chame-se a isso Deus. Dessa Verdade sempre-existente o Universo parece projetado, parece existir, e parece dissolver-se. Tal como as ondas do oceano, ondas que aparecem e desaparecem todo o tempo. - A continuidade entre essas oscilações é a Eternidade. O aparecimento e o desaparecimento das ondas não afeta de maneira alguma o oceano, e essa emanação e sua retirada ou absorção não atinge a Suprema Verdade, a qual é sempre infinita, sempre contínua.

Muitas vezes as pessoas dizem que adorar imagens ou ídolos está errado. Vejamos então os fatos. Todas as religiões concordam que Deus é Infinito e Onipresente. Quem de nós pode imaginar o Infinito? Esqueça a referência da Infinitude. Quem de nós pode imaginar nossa própria cidade na sua totalidade? Nós não podemos, e, assim, consultamos mapas. Quem de nós pode sequer imaginar o planeta Terra na sua totalidade? Não podemos. O que fazemos é usar o mapa do globo terrestre a fim de podermos concentrar nossa mente e falar em termos aceitáveis a respeito de nosso planeta. Todos nós sabemos que o mapa não é o planeta, mas apenas o representa. Adorar a Deus por meio de imagens é semelhante. Um hindu sabe que a imagem não é Deus, que só representa Deus. Um hindu se dá conta de que, para o homem comum, é virtualmente impossível visualizar e imaginar o infinito. Por isso ele usa imagens. Para adorar a Deus, é melhor usar imagens do que deixar de fazê-lo, dizendo que "o infinito e a onipresença são muito difíceis para nós". Por estranho que pareça, a atitude do hindu e a do cristão na adoração de imagens é a mesma.


Ponte Shivanand Jhula, que atravessa o Ganges na cidade de Rishikesh


Os hinduístas são frequentemente acusados de politeístas. Eles parecem adorar muitos deuses. Mas não é assim. Não são muitos deuses. Eles adoram as muitas imagens dos muitos particulares aspectos de Deus. Ganapati ou Ganesh, por exemplo, é adorado no começo de toda oração e das cerimônias, a fim de remover obstáculos da mente. Os hinduístas, nesse momento, concentram seus corações e mentes no aspecto de Deus que remove obstáculos, e chamam a esse aspecto de Ganapati. É mais fácil acercar-nos de nossa mãe e fazer-lhe pedidos do que acercar-nos do nosso pai. Por isso os hinduístas adoram Deus mais em seu aspecto de mãe, e chamam a esse aspecto de Lakshmi, - para pedir bem estar e riqueza. Os hinduístas se dão conta de que o mesmo Senhor é o Criador, o Preservador e o Destruidor, e dá a cada aspecto do mesmo Senhor diferentes títulos e imagens, como Brahma, Vishnu e Shiva.

O objetivo da adoração do hinduísta, isto é, sua finalidade última, é a realização de Deus. Ele usa a imagem em um estágio inicial. Assim é como deve ser. Quando nós somos bebês, seguramos no dedo de nosso pai para aprender a caminhar. Mesmo tendo obtido a realização, o hinduísta não esquece que a imagem de Deus o representa e, por isso, nunca deixa de reverenciar com devoção, humildade e amor quando está na frente de uma dessas imagens, tendo em conta sempre que sua homenagem é para o Todo-poderoso Deus que a imagem representa. Tudo isso representa a onipotência de Deus para ele. Toda a criação é manifestação Sua.


Finalmente, ainda que os hinduístas não sejam politeístas, seu monoteísmo deve ser apropriadamente compreendido. Os hinduístas não dizem que existe um só Deus. Todas as religiões declaram que Deus é Infinito. Os hinduístas dizem que só existe Deus. E se nós nos sentimos separados desse Infinito, se o Universo for separado do Infinito, então isso significa pôr uma limitação ao Infinito. Um infinito no qual não se inclua tudo não é infinito. Nós estamos todos neste infinito, e este infinito é Deus. Existe Deus e Deus. Só. Nada fora de Deus existe."

- Prof° Naren Nagin



Minhas conclusões

Agora sim, esclarecimentos feitos, me permito acrescentar a minha visão pessoal acerca de tudo que foi dito, na forma de observações e perguntas:

1) Se o Deus Uno se manifesta sob inúmeras formas para os crentes, de acordo com aquilo em que eles acreditam, então como poderíamos aprender, crescer, evoluir? Se eu acredito num deus rato ou num deus com cabeça de elefante, e aí o Deus Uno, que está além de todas as formas, se manifesta a mim como rato ou como um deus com cabeça de elefante, como eu poderia chegar a conhecer a Verdade além das formas? Como aprender, como chegar mais próximo desse único Deus, se ele próprio alimenta a ilusão dos ignorantes??

2) "O aparecimento e o desaparecimento das ondas não afeta de maneira alguma o oceano, e essa emanação e sua retirada ou absorção não atinge a Suprema Verdade, a qual é sempre infinita, sempre contínua." - Uma maravilhosa analogia para a realidade divina e suas relações com o humano, que eu fiz questão de repetir. Observe-se que essa afirmação parece destoar de outras partes do que foi dito pelo mesmo autor: ainda que as ondas estejam no mar, pertençam ao mar, façam parte do mar e sejam manifestações do mar, não seria possível afirmar que "as ondas 'são' o mar", completamente. No máximo, as ondas são parte do mar.

3) “Chame-se a isso natureza ou chame-se a isso Deus”, diz o Prof° Nagin. - Eu digo que, se existe algo que aprendi do grande Mistério, é que Deus transcende a natureza. Deus está na natureza, sim, mas vai além da natureza. Deus está em mim, está no meu próximo, nos oceanos e nos planetas, mas vai além disso. E é exatamente esse o significado da palavra ‘transcendência’. Transcender significa extravasar, ir além, superar limitações. Dizer que Deus é apenas a natureza e nada mais é limitá-lo, e Deus não pode ser limitado. Contraditoriamente, a mesma doutrina hindu também diz que Deus é Ilimitado e Incompreensível. - Ora, sendo Ilimitado e Incompreensível, não se pode dizer que Deus e a natureza são uma só coisa, pois a natureza é limitada, investigável, passível de ser conhecida pela mente humana.

4) “Um hindu sabe que a imagem não é Deus”. Aqui fica clara a diferença que existe entre o que ensina uma doutrina e o que acontece na prática, fenômeno que por sinal não é exclusividade do hinduísmo. Também entre cristãos (católicos e ortodoxos, no caso) existem os que confundem a imagem com a realidade que ela representa. Não é difícil ver um devoto entrando num templo cristão e deixando um 'bilhetinho' para uma imagem, beijando os pés de uma imagem e fazendo pedidos para a imagem. Será que todos eles estão mesmo conscientes, o tempo todo, de que aquela imagem é apenas uma representação? Será que estão mesmo voltando sua atenção a Deus, enquanto o fazem, e não à imagem em si? Será que doutrina e prática são uma só coisa? Mas quem poderia responder a essas perguntas, afinal de contas? Não, não é possível afirmar que os hinduístas se dão conta de que as muitas representações de deuses são direcionadas a um só Senhor. O próprio Ramakrishna, um dos maiores gurus e mestres hindus de todos os tempos, na obra magna de Swami Abhedananda, ‘O Evangelho de Ramakrishna’, reconheceu isso.

5) Curiosamente, minha mãe foi extremamente enérgica comigo durante a minha infância, e foi até mesmo rude na minha educação. Já meu pai era doce e suave, era ele quem me consolava das broncas e nas minhas dificuldades. - E o meu caso não é único nem raro. Quem de nós nunca conheceu uma história semelhante? - Portanto, esse conceito de que é necessário recorrer a uma deusa-mãe em razão da inacessibilidade de um deus-pai, é, no mínimo, altamente questionável. A visão do Deus Eterno e inacessível como nosso 'Pai', trazida por Jesus, ao contrário, representou uma aproximação importantíssima e sem precedentes entre homem e Divindade.




Por fim, concluo dizendo aquilo que o meu entendimento e a minha consciência gritam: que Deus é Infinito e não pode ser classificado por nós. Se, como disse o próprio guru Nagin, nós não somos capazes de entender o sentido de infinitude, e não somos capazes nem mesmo de compreender a grandeza da cidade em que vivemos, por sermos limitados, como se poderia supor que sejamos capazes de, assim, contemplar Deus, explicar Deus, definir Deus, dizer o que Ele é e o que não é? A minha religião pessoal, - que é só minha, - é a religião que reverencia o Mistério, que busca apenas e tão somente comungar com esse Mistério, - este sim, Infinito, - que não pode ser explicado e nem limitado de nenhuma maneira... E assim ganhar as alturas. Contraditoriamente ou não, o próprio Mahabharata, o maior livro sagrado hindu, parece concordar comigo:

"Disse Arjuna (homem): 'Tu és o Brahman Supremo, o Último, a Suprema Morada e o Supremo Purificador; a Verdade Absoluta e a Pessoa Divina Eterna. Tu és o Deus Primordial, Transcendental e Original, e Tu és a Beleza não-nascida e todo-penetrante. Todos os grandes sábios proclamam isso de ti. (...) Na verdade, só Tu te conheces através da tua Potência interna, ó Pessoa Suprema, Origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, Senhor do Universo! Por favor, fala-me detalhadamente dos teus poderes divinos, pelos quais penetras todos estes mundos e moras neles. Como devo meditar em Ti? Em que forma deves ser contemplado, ó Bem-Aventurado Senhor?'

Respondeu Krishna(Deus): 'Sim, Eu lhe falarei de Minhas manifestações esplendorosas, mas somente das que são proeminentes, ó Arjuna, pois a Minha opulência é ilimitada. Eu sou o Eu, ó Gudãkesa, situado nos corações de todas as criaturas. Eu sou o começo, o meio e o fim de todos os seres. (...) Mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim. Eu sou tudo, mas sou independente. Eu não estou sob a influência dos modos da natureza material. Eles, ao contrário, estão em mim...


Trechos do 10° capítulo e outros


"Eu sou tudo, mas sou independente". Simplesmente perfeito. E um modo perfeito de encerrar essa postagem. Agradeço a todos os que me deram a oportunidade de escrever essa reflexão meditativa sobre questões tão essenciais, em especial ao Gustavo, Felipe e comentaristas anônimos. Muito obrigado!



1. RICUPERO, Rubens. O Ponto Ótimo da Crise, Rio de Janeiro: Editora Revan, 1998, p. 76.

2. A informação consta também no 22° Boletim Informativo da Organização Sri Sathya Sai. Rio de Janeiro: Conselho Central do Brasil/Coordenação de Difusão, Edição fevereiro/2006, p. 8.

3. Escritor especializado em Hinduísmo, PhD em Estatística e membro do Indian Statistical Institute Kolkatta.

4. Naren Nagin, além de escritor e conferencista de temas ligados à espiritualidade é também advogado. Vive atualmente em Vancouver, Canadá.



Fontes e bibliografia:

Portal do Ashram Jnana Mandiram, seção Introdução ao Hinduísmo, em http://www.jnanamandiram.org.br, acesso em 17/03/2009;
Blog Indiagestão, - uma brasileira vivendo na Índia, 2005/2008, em http://indiagestao.blogspot.com/2005/08/templo-karni-mata.html e http://indiagestao.blogspot.com/2008/07/vale-pena-ver-de-novo_14.html, acessos em 17/03/2009;
PEIRANO, Mariza G. S. Dados - Dados e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/ Sociedade Brasiliera de Instrução, 1987, p. 359;
Portal National Geographic: em http://www.nationalgeographic.pt/articulo_texto_iframe.jsp?id=1212728, acesso em 03/01/2008.




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